Em uma indústria com cerca de 3.000 funcionários, a primeira semana de piloto do Copilot trouxe um chamado para a segurança. Um analista perguntou ao Copilot "qual foi o reajuste salarial deste ano" e recebeu a resposta, com link para a planilha. O arquivo estava em uma biblioteca do SharePoint compartilhada com "Everyone" desde 2019. Ninguém havia encontrado antes porque ninguém procurava. O Copilot procurou.
Esse caso resume o que vejo nos diagnósticos: a ferramenta respeita as permissões à risca, e as permissões estão erradas. Este post explica o caminho que um prompt percorre, onde o Purview entra e o que arrumar antes de dar a primeira licença.
O caminho de um prompt
Quando uma pessoa com licença do Microsoft 365 Copilot (a documentação mais recente o chama de Microsoft Copilot) escreve um prompt, acontece o seguinte. O serviço consulta o Microsoft Graph e o semantic index, um índice semântico dos e-mails, arquivos, chats e reuniões do tenant. A consulta roda com a identidade de quem perguntou, então só retorna itens em que essa pessoa já tem ao menos permissão de leitura. O conteúdo encontrado é anexado ao prompt e enviado ao modelo de linguagem, que gera a resposta com citações dos arquivos usados.
Dois pontos dessa sequência importam para a política da empresa. Primeiro: a Microsoft afirma na documentação de privacidade que prompts, respostas e dados acessados pelo Graph não são usados para treinar os modelos. Segundo: o serviço não usa a revisão humana de "abuse monitoring" do Azure OpenAI. Tudo roda sob o Enterprise Data Protection, com os mesmos termos contratuais do Exchange e do SharePoint.
No Copilot Chat gratuito a etapa do Graph não existe: ele só vê o que a pessoa cola ou anexa. Em Copilot Chat grátis, Microsoft 365 Copilot e as versões para pessoa física explico as camadas de licença.
O problema de verdade: compartilhamento excessivo
Em quase toda empresa brasileira que atendemos, o SharePoint tem entre 8 e 15 anos de história. Sites de projeto criados em 2015 com "Todos exceto usuários externos" no grupo de membros. Bibliotecas de RH em que alguém deu acesso a "Everyone" para resolver um problema de sexta-feira. Links de compartilhamento com "qualquer pessoa na organização" gerados por padrão durante anos. A busca tradicional já mostrava tudo isso, e poucos buscavam. O Copilot responde perguntas, e as pessoas perguntam.
Três ferramentas ajudam a enxergar e corrigir, e você ganha duas delas ao comprar a primeira licença:
- SharePoint Advanced Management entra sem custo quando pelo menos um usuário do tenant tem licença do Copilot (ou com Microsoft 365 E7). Traz relatórios de compartilhamento excessivo, revisão de acesso pelo dono do site e políticas de ciclo de vida de sites.
- Restricted Content Discovery tira um site da busca da organização e das respostas do Copilot sem mudar as permissões. É um controle temporário, para sites que você ainda não conseguiu arrumar. Substitui o Restricted SharePoint Search, que está sendo aposentado: novas ativações estão bloqueadas desde 31/07/2026.
- Purview DSPM (Data Security Posture Management, que absorveu o antigo DSPM for AI) mostra onde há dado sensível exposto e quais arquivos aparecem em interações com IA. A versão anterior avaliava toda semana o compartilhamento excessivo nos 100 sites mais usados.
Na indústria do início, o relatório de compartilhamento excessivo listou 212 sites com acesso para todos. Em quatro semanas, 180 foram fechados pelos próprios donos a partir de um e-mail com a lista; 32 ficaram em Restricted Content Discovery até a migração. A planilha de salários ganhou rótulo Confidencial e permissão só para o RH.
Onde o Purview entra
O Microsoft Purview é a camada de proteção de informação do Microsoft 365, e o Copilot obedece a ela. Um arquivo com rótulo de sensibilidade e criptografia só entra na resposta se a pessoa tiver direito de uso sobre ele. Quando o Copilot gera um documento novo a partir de um arquivo rotulado, o novo herda o rótulo e a criptografia. As interações ficam no log de auditoria e podem ser alvo de políticas de DLP, retenção e eDiscovery, como qualquer e-mail.
O Purview é opcional para ligar o Copilot e obrigatório para ter uma regra sobre o que ele pode mostrar da folha de pagamento. A ordem que funciona: definir três ou quatro rótulos (Público, Interno, Confidencial, Restrito), rotular por padrão o que nasce no RH, no financeiro e no jurídico, e só então liberar as licenças para essas áreas.
Onde os dados são processados
Para clientes na União Europeia, a Microsoft garante que o tráfego do Copilot fica dentro do EU Data Boundary. Para o resto do mundo, inclusive o Brasil, a documentação diz que o tráfego pode ser enviado à UE e a outras regiões para processamento pelo modelo. Os modelos da Anthropic, usados como subprocessador em alguns recursos, ficam fora do EU Data Boundary. Dados em repouso seguem os compromissos do Advanced Data Residency e do Multi-Geo, quando contratados.
Para a maioria das empresas brasileiras isso é aceitável, porque o Exchange e o SharePoint já operam sob os mesmos termos. Se a sua política exige saber em qual região cada etapa roda, leve a página de privacidade do Copilot (nas fontes) para o jurídico antes do piloto e peça por escrito à Microsoft o que não estiver claro.
Antes de ligar o Copilot
- Relatório de compartilhamento excessivo do SharePoint Advanced Management rodado e lido pela segurança
- Sites com "Everyone" ou "Todos exceto usuários externos" fechados ou colocados em Restricted Content Discovery
- Link de compartilhamento padrão do tenant trocado de "qualquer pessoa na organização" para "pessoas específicas"
- Rótulos de sensibilidade definidos e aplicados nas bibliotecas de RH, financeiro e jurídico
- Grupos do Microsoft 365 e equipes do Teams sem dono tratados
- Política de uso de IA de uma página publicada e aceita pelos usuários do piloto
- Log de auditoria do Purview ativo e alguém com acesso para investigar um chamado
- Piloto começando por áreas com dado menos sensível; RH e financeiro só depois dos rótulos
Faça
- Rodar o relatório de compartilhamento excessivo antes de comprar a primeira licença, e repetir todo mês.
- Corrigir permissões na origem: o dono do site revisa o acesso e o grupo "Everyone" sai.
- Usar Restricted Content Discovery como ponte, com data para sair.
- Rotular por padrão o que nasce em RH, financeiro e jurídico.
Evite
- Ligar o Copilot para a empresa inteira e esperar o primeiro chamado para arrumar.
- Tratar Restricted Content Discovery como solução definitiva. Ele esconde da busca, e a permissão continua aberta.
- Confiar que o que a busca não mostrou hoje continua escondido depois que alguém pergunta de outro jeito.
- Deixar o jurídico descobrir o processamento fora do país depois do piloto.
O próximo passo prático é pedir à TI o relatório de compartilhamento excessivo e a lista de sites sem dono. Com esses dois documentos, você sabe o tamanho do problema antes de assinar o pedido de licenças. Se a empresa também tem apps e fluxos espalhados, o mesmo raciocínio vale para governança na Power Platform. Para o time de TI e segurança que vai sustentar isso, a Trilha Governança Microsoft cobre permissões, Purview e os controles do SharePoint em 24 horas.
Fontes
- Microsoft Learn: dados, privacidade e segurança do Microsoft 365 Copilot
- Microsoft Learn: semantic index para o Copilot
- Microsoft Learn: Enterprise Data Protection no Copilot
- Microsoft Learn: Microsoft Purview para aplicativos de IA
- Microsoft Learn: Purview Data Security Posture Management (DSPM)
- Microsoft Learn: pré-requisitos do SharePoint Advanced Management
- Microsoft Learn: aposentadoria do Restricted SharePoint Search
- Microsoft Learn: Restricted Content Discovery
- Microsoft Learn: blueprint de dados seguros e governados para o Copilot (oversharing)
Preços, nomes de plano e limites mudam. Confira sempre a tabela oficial da Microsoft antes de decidir.
Perguntas frequentes
O que mais perguntam sobre este assunto
- O Copilot usa meus dados para treinar a IA?
- A Microsoft afirma na documentação de privacidade que prompts, respostas e dados acessados pelo Microsoft Graph não são usados para treinar os modelos de linguagem, incluindo os da própria Microsoft. O serviço também não usa a revisão humana de abuse monitoring do Azure OpenAI. Tudo roda sob o Enterprise Data Protection, com os mesmos termos contratuais do Exchange e do SharePoint.
- O Copilot ignora as permissões do SharePoint?
- Não. Ele consulta o Graph e o semantic index com a identidade de quem pergunta e só devolve itens em que essa pessoa já tem ao menos permissão de leitura. O que acontece é que ele encontra em segundos o que estava aberto demais e ninguém procurava. Corrigir a permissão na origem resolve; esconder da busca com Restricted Content Discovery é medida temporária.
- Preciso do Purview para usar o Copilot?
- O Copilot funciona sem Purview. Sem rótulos de sensibilidade, porém, você não tem como garantir que um arquivo confidencial fique fora da resposta de quem não deveria vê-lo, e sem o log de auditoria não dá para investigar um chamado. O SharePoint Advanced Management, com os relatórios de compartilhamento excessivo, vem incluído a partir da primeira licença do Copilot no tenant.
- O que fazer com sites compartilhados com todo mundo?
- Primeiro liste: o relatório de compartilhamento excessivo do SharePoint Advanced Management mostra os sites com acesso para Everyone ou para toda a organização. Mande a lista aos donos com prazo para revisar. O que não for corrigido no prazo entra em Restricted Content Discovery, que tira o site da busca e do Copilot sem alterar permissões, até a migração ou o arquivamento.
- Onde os dados do Copilot são processados?
- Para tenants na União Europeia, dentro do EU Data Boundary. Para os demais, incluindo o Brasil, a Microsoft informa que o tráfego pode ser enviado à UE e a outras regiões para o processamento pelo modelo. Os modelos da Anthropic, usados como subprocessador, ficam fora do EU Data Boundary. Confira a página de privacidade do Copilot nas fontes antes de fechar a política interna.
